quinta-feira, 16 de agosto de 2012


Saiba que todas as coisas são assim:

Uma miragem, um castelo de nuvens,

Um sonho, uma aparição,

Sem essência mas com qualidades que podem ser vistas.

Saiba que todas as coisas são assim:

Como a lua num céu brilhante

Em algum claro lago refletida,

Ainda que para aquele lago a lua jamais se moveu.

Saiba que todas as coisas são assim:

Como um eco que provém

Da música, sons, e lamentos,

Embora nesse eco não haja melodia.

Saiba que todas as coisas são assim:

Como um mágico que fabrica ilusões

De cavalos, bois, carroças e outras coisas,

Nada é como parece.  (Buda)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

ESTOU SEM VOZ,
ENTAO COMPARTILHO O QUE E DITO
ESTOU SEM COR,
APENAS COMPARTILHO AS CORES EXPRESSAS
ESTOU SEM FORMA,
POR ISSO COMPARTILHO AS IMAGENS VSTAS.
ME ESCONDO E ME MOSTRO NAQUILO QUE ME IDENTIFICO.
Claudia Colagrande
inverno/2012

sexta-feira, 27 de abril de 2012

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO



Entre o Mar, o Céu e a Terra, reflexões sobre os signos na obra de Arthur Bispo do Rosário, leva esse nome porque na maioria de suas obras ele trás símbolos de suas memórias, suas histórias e seu passado. Da vida na marinha(mar) trás os barcos, navios, nomes de colegas bordados; do céu ele trás referências de Nossa Senhora, Jesus e o manto que utilizará no dia do julgamento; da terra ele utiliza todos os materiais que se lhe apresentam na frente transformando-os em instalações e antecipando-se na utilização das sucatas tão utilizadas na atualidade.
As duas obras escolhidas para que a pesquisa se desenvolva em termos reflexivos , além do Manto da Apresentação, mostram a essência de sua produção: o bordado e a caixa de memórias. A respeito do Manto da Apresentação já há algumas pesquisas feitas e por isso iremos nos focar na “Caixa dos Escolhidos” e na obra “Estandartes”.
Mas quem era esse artista? Arthur Bispo do Rosário, um artista atento ao seu mundo, com olhar ao redor e entorno de si, sua obra tornou-se um ícone para a Arte Contemporânea.
“Arthur Bispo do Rosário, negro, sem documentos, presumíveis 27 anos, ganhava um registro no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, na véspera de Natal”[1]*  em 1938. Apresentou-se sozinho no manicômio após ter uma visão de anjos que vieram reconhece-lo como representante de Cristo. Após o Natal foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá onde viveu e produziu por quase 50 anos.  Naquela época os hospitais psiquiátricos funcionavam como presídio que mantinham os doentes internos em celas com grades sem a menor condição humana de sobrevivência. Bispo havia trabalhado na marinha como sinaleiro e praticou pugilismo na época o que o deu o título de xerife no manicômio pois quando chegavam doentes agressivos, Bispo era chamado pelos enfermeiros ou pela polícia para nocautear o paciente afim de poderem medicá-lo controlando a agressividade do mesmo. Isso  trouxe a Bispo um lugar de destaque no hospital.
De meses em meses, pedia ao guarda do Núcleo Ulisses Viana que o prendesse porque ele estava se transformando. O guarda perguntava em que? Ele respondia “em rei. Eu sou o rei dos reis”. Nessas horas exigia ser trancado numa cela onde fazia jejum , assombrado por sua obsessão, um maestro empenhado em dirigir a reconstrução do mundo. Nessa  fase de transformação e isolamento que a arte brotava de suas mãos, e sua arte nascia de seus sacrifícios. Na falta de material Bispo desfiava o próprio uniforme azul da Colônia Julianos Moreira para, com os fios, “tecer a teia que abrigaria os lotes do novo mundo. Assim começou a cerzir o Manto da Apresentação, espécie de mortalha sagrada que bordaria durante toda a vida para vestir no dia da apresentação, no Juízo Final, na data da Passagem”. (pag.26). Neste manto haviam vários nomes bordados de pessoas que ele julgava merecedoras de subirem rumo o além.
“Bispo utilizou a mesma técnica de bordados depois chamadas de estandartes: lençóis e cobertores da Colônia bordados à mão com as linhas dos uniformes. Ele bordava nomes de países, funcionários, mulheres eleitas”[2] . Aproveitava também o espaço como desabafo para suas idéias.
Era um dos privilegiados que tinha autorização dos médicos para circular livremente dentro da Colônia por ter boa conduta e “caçava” objetos largados para utilizar em suas obras.
Jacarepaguá deveria sediar o ninho dos excluídos socialmente, aí incluindo homens tomados de estranhos delírios. As pessoas que ali viviam estavam sujeitas a todo tipo de preconceito. A teoria das colônias era o que havia de mais ousado na psiquiatria europeia. Acreditavam que  a doença mental era hereditária para segregar e esterilizar os pacientes, especialmente os não brancos, dotados de sabe-se lá que diabólicas tendências psíquicas, supostamente lesivas a uma idealizada raça branca. Nesse período, 1939, a Segunda Guerra Mundial explodia do outro lado do mundo, Hitler filtrava a raça ariana em ritos bárbaros, e Bispo era um sergipano, pobre, negro de ascendência escrava, extraditado para a colônia Juliano Moreira.
Bispo evitava falar sobre seu passado e mesmo os documentos encontrados na marinha e na light tem controvérsias porém o registro de batismo confirma o nascimento em 1909 (batizado em outubro, aos 3 meses de idade). Do pai herdou o sobrenome Bispo e sua mãe tinha o sobrenome Jesus, nome que em seus delírios usava como sendo o próprio Jesus Cristo.
Filho de Deus, adotado por Virgem Maria e escoltado por seres angelicais, Arthur Bispo do rosário tinha raízes fincada na terra de Japaratuba, no interior de Sergipe, e carregaria a cultura local, incubada, pela estrada de desvios. Os signos desse passado trancado a sete chaves não ficariam de fora na reconstrução do novo mundo. (p. 35)
Bispo viveu trancafiado em um quarto-forte transformado em templo e dono de uma verdade mística muito particular, ele faria da vida um retiro, construindo um universo com as próprias mãos que mais tarde ganharia ares de autobiografia. Os delírios diagnosticados pela psiquiatria ao longo do tempo esbarrariam em ícones religiosos.
Sua cidade foi local de conquistas indígenas e pregações missionárias e o nome Japaratuba significa rio de muitas voltas. Os moradores de Japaratuba seguiam rigorosamente as tradições da igreja católica, a tradição cristã era passada de pai para filho. Arthur Bispo do Rosário cresceu assistindo rituais, rosários, mandamentos, pecados, culpas e confessionários. Anos mais tarde, ele se diria filho da Virgem Maria, vivia fazendo jejuns para virar santo, confeccionaria um novo mundo para apresentar ao Todo-Poderoso.
Na quaresma, Japaratuba preparava-se para dias de jejum, comidas, bebidas e danças, era um local que cultuava tradições e alegorias. Bispo criança viveu tempos de procissões, quadrilhas e desfiles e as festas eram precedidas de semanas de preparativos onde bordadeiras e costureiras preparavam as roupas para os folguedos. Os bordados eram perfeitas traduções da cultura de Japaratuba.
Em sua memória parece que Bispo carregou dessa vila onde nasceu a diversidade de bordados, fardões e tecidos das datas festivas. Um dia, designado “rei dos reis” por seres luminosos, ele teceu o próprio Manto da Apresentação, vermelho cheio de bordados, que o levaria ao dia do Juízo Final .


[1] Luciana  HIDALGO, Arthur Bispo do Rosário,  o Senhor do Labirinto, p. 17.
[2] Ibid., p. 27.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AQUARELA

Em 1987 fui fazer um curso no MAC Ibirapuera que tinha o título "O Fazer Artístico". O curso foi ministrado por John Swift, diretor da Universidade de Cambridge e a técnica utilizada foi a aquarela. O curso durou 5 dias e a cada dia era trabalhado um tema a respeito do Valor da Imitação. Tudo foi inovador. A minha geração passou por uma mudança brusca onde as aulas de arte deixaram de valorizar a cópia, os desenhos "mimeografados" e passarm a ser aulas livres.
Toda mudança radical necessita de um tempo para ser assimilada e encontrar um equilíbrio. Como podemos ser livres para criar sem noção do que e de como fazer? Não podíamos usar borracha mas também não sabíamos olhar... a base do desenho é a investigação sensorial, visual, tátil. Para algumas pessoas é angustiante demais o fato de ouvir ao comando "faça um trabalho livre". Não há nada mais intimidador, paralizador do que isso. Bem, o fato é que John Swift ao falar a respeito do valor da imitação abriu um portal enorme de possibilidades e valoriação para a criatividade.
Hoje falar a respeito de citação, referência a um artista, releitura é comum; mas não ´década de 70, 80 isso não era possível. Em 1987 eu já estava formada em artes plásticas e fazia pós graduação em História da Arte, no mesmo ano fiz curso com Nuno Ramos e Paulo Monteiro também no MAC. Eu adorava experimentar materiais, criar, não me prendia a conceitos externos quando produzia um trabalho expressivo; eu gostava mesmo era da liberdade de me expressar de acordo com a minha necessidade interior (e ainda gosto).
Por isso, ao ouvir falar sobre imitação consciente e inconsciente, sobre memórias inconscientes que se revelavam em uma pintura fiquei encantada.
Uma das atividades foi buscar na memória a nossa própria imagem e registrá-la em aquarela. O resultado foi esse abaixo:

Para minha surpresa o professor perguntou-me se eu era aquarelista! Não, eu nunca havia pintado uma aquarela até aquele dia porém, aquele comentário me insentivou a ponto de me fazer nunca mais parar de aquarelar qualquer pedacinho de papel que encontro. Obrigada John Swift.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ENSAIO SOBRE SAPATO

Gosto de andar pelas ruas e fotografar ou pegar sapatos encontrados; geralmente um pé só, sem dono, sem o pe´. Por onde anda o pé deste sapato? Há 10 anos me ocupo disso...
Tudo começou numa madrugada no Bexiga, madrugada paulistana, garoa e alguns amigos já meio embreagados, a risada rolava solta. Como eu não bebo me divirto com as histórias. Então a essa altura, umas 2h da madrugada, olhei para o chão e havia uma cena mágica: um sapato abandonado com a sola aberta, a garoa caindo e a luz do poste refletindo sobre ele. Olhei aquela imagem e disse "olha que maravilha! Que poético!". Sem hesitar peguei aquele sapato abandonado pensando em fazer uma instalação com ele. Todos pararam, começaram a rir e comentar "ainda bem que ela não bebe, rsssss". Tudo bem, eu continuo até hoje encantada com cada sapato que encontro abandonado na rua- e são vários...
Essa foto é uma experiência desta pesquisa e, por coincidência, também encontrado numa madrugada no Bexiga agora recentemente.




 ...

Olha o sapato no chão
onde andará esse pé...
no céu o brilho da noite
a rua cheia de bar
o pé, o chão.
o sapato na rua,
o olho na lua.
                              Claudia Colagrande

domingo, 1 de abril de 2012

DESDOENDO

Uma amiga do FB publicou uma palavra muito interessante "desdoendo"! Ana Cristina Martins me inspirou tanto com esta palavra que há 3 dias me pus a pensar nos "des" da vida; e são muitos, e tantos como : descolagem, despertar, despontar, despejar, desapego, deslocado, desencorajar, destoar, desbotar, desavesso, enfim poderia passar horas aqui buscando palavras desafiando o desejo de encontra-las. Mas desdoendo... essa eu nunca havia ouvido, lido nem pensado. E foi por isso que fiquei instigada a escrever algo que desconstruisse o pensamento mecânico de repetir palavras já prontas, tentando brincar com as palavras usando-as de forma criativa. O que surgiu deste ensaio reflexivo foi o seguinte:   

Procuro desfalar e desver
Despercorrendo o descaminho
Iniciando o despercurso
Lentamente desdoendo...
Claudia Colagrande, outono 2012

O que foi arrebatador foi a motivação que me levou a encontrar palavras que pudessem fazer sentido onde não há. Como o caminho que nunca foi percorrido, o sonho que nunca foi sonhado, a emoção que ainda não foi descoberta. Assim vou tecendo a vida buscando dar um dessentido a ela já que muitas vezes parece não haver nenhum. Desdoendo é muito bom! Ainda não é sem dor mas o desejo do por vir.
E vou desdomingando com a foto da Nina que clicou a pomba desvoando, boa noite!

quinta-feira, 15 de março de 2012

ENSAIO

 foto Marco Mendes

Se a tua verdade é o que lhe parece,
quem poderá negar-te?
Conhece-te a ti mesmo
ou, engana-te a ti mesmo.
A imagem que passas ao mundo
são as atitudes que tens perante a vida e as pessoas.
Essa torna-se a verdade sobre ti para o mundo.
A outra faz parte do mundo das idéias.


Claudia Colagrande

segunda-feira, 12 de março de 2012

Pinacoteca do Estado de São Paulo


Pinacoteca do Estado de São Paulo, na Estação da Luz é um referência da arquitetura dessa cidade. Em 1984 entrei na Faculdade de Belas Artes de São Paulo pois meu sonho era estudar neste lugar pois a Belas Artes tinha como cede esse prédio. Só prestei vestibular na Belas Artes. Por ironia do destino, ao passar no vestibular, soube que a minha turma seria a primeira a iniciar o curso no novo prédio, na Vila Mariana onde situa-se a Belas Artes até hoje. Fiquei muito triste porém, o curso de arquitetura continuou na Pinacoteca até 1989 e então eu fiz o curso de Artes Plásticas como aluna regular (na Vila Mariana) e Arquitetura como aluna ouvinte no prédio da Pinacoteca...
Ontem passamos o dia andando por São Paulo e fotografando a cidade... a Pinacoteca continua causando o mesmo impacto em meu ser embora hoje esteja muito mais bem cuidada!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Caderno de Artista

O Caderno de Artista é um veiculo de reflexão que o artista utiliza para utilização de seu processo criativo, critico. Esse meio ajuda a organizar as idéias, fazer estudos de imagens, desconstrui-las se necessário e perceber o amadurecimento da linguagem. Considerando que essas experiências para cada um se da de maneira única, a elaboração desse processo torna-se uma referência para o próprio artista. A observação dessa prática revela uma história imagética. Sempre gostei de escrever, pintar e desenhar e os cadernos sempre fizeram parte de minha vida. Quando percebi havia uma coleção deles... as vezes pego um e fico explorando através do olhar, percebendo sinais das linhas, cores e gestos que criaram uma marca. Aquarelas, colagens e linhas indefinidas fazem parte desses registros.
Amo meus cadernos e acho que são eles quem mais me revelam pois na intimidade de minha criação, sem pretenções de criar uma obra são eles que a conservam em sua forma original e pura. Os erros (?), as tentativas, os acertos (?), está tudo contido lá. Sem reparos, sem mascaras, apenas existindo de maneira original na explosão de cada momento.

Desconstrução da Imagem


Na 2a feira de carnaval acordei no meio da noite e liguei a TV para ver se havia algo de interessante. Passando pela TV Cultura havia uma imagem no centro do Roda Viva que me chamou a atenção; por um momento fiquei tentando buscar referências para aquilo que meus olham miravam. Não havia. Era Laerte Coutinho, um cartunista muito inteligente, vestido de mulher, maquiado, cabelos longos e unhas pintadas de vermelho. Em seus olhos havia uma verdade absoluta e em sua fala algo que ultrapassava conceitos e pre-conceitos. As outras personalidades que o entrevistavam eram todas pessoas também muito interessantes e, ao final do programa ja não importava se era um homem, uma mulher e sim, um ser humano genial!
Desde esse dia essa imagem ficou em minha mente. As imagens costumam falar mais do que as palavras quando prestamos atenção a elas. Sempre trabalhei com a desconstrução de imagens; desenhos realistas nunca foram meu foco, meu interesse pois as coisas são as coisas. A arte para mim tem outra função. A de ultrapassar a superficialidade e causar estranhamento, questionamento, nos fazer sair do lugar de conforto para um lugar de reflexão. Os rótulos surgem quando fixamos apenas na aparência das coisas mas, se ousarmos buscar uma essência então algo pode se revelar. A percepção da sensação que a imagem nos causa é o que conta. Então, citando George Braque: "A ciência tranquiliza e a arte perturba".
Obrigada Laerte por causar essa profunda perturbação.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Reflexões sobre o Tempo



Reflexões sobre o tempo, o olhar e arte... se ja disseram tudo ou, quase tudo, tenho mais a dizer? Então repasso o ja dito e compartilhando coisas que me identifico.


"Buscar histórias de cor, de matérias e materiais constituídos por resíduos e passagens do tempo [...] o lodo da parede, o desgaste do concreto, a corrosão do ferro [...] A essência das formas, a essência do tempo, a essência das aparências ou aparessência.”    Alexandre P. FRANÇA, Relatos do tempo, 1996




"Muitos [...] não tem relógios. No lugar deles ouvem a batida dos seus corações. Eles sentem os ritmos de seus humores e desejos. Essas pessoas comem quando sentem fome, vão para o trabalho, na chapelaria ou no laboratório, na hora em que despertam do seu sono e fazem amor a qualquer hora do dia.   Lightman, 1993
"Afirma-se que o tempo é irreversível [...] “o passado não volta jamais”. Mas o que será, exatamente, esse “passado”? Aquilo que já passou? E o que essa coisa“ passada” significa para uma pessoa quando, para cada um de nós, o passado é o portador de tudo que é constante na realidade do presente, de cada momento do presente? Em certo sentido, o passado é muito mais real, ou, de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos adquirindo peso material somente através da recordação."  Tarkovskiaei




"Ele nasce de minha relação com as coisas. Nas próprias coisas, o porvir e o passado estão em uma espécie de preexistência e de sobrevivência eternas; a água que passará amanhã está neste momento em sua nascente, a água que acaba de passar está agora um pouco mais embaixo, no vale. Aquilo que para mim é passado ou futuro está presente no mundo."  Merleau-Ponty


"Ele passa a ser um artista no momento em que, em sua mente, ou mesmo no filme, seu sistema particular de imagens começa a adquirir forma — a sua estrutura pessoal de idéias sobre o mundo exterior — e o público é convidado a julgá-lo, a compartilhar com o diretor os seus sonhos mais secretos e preciosos." Tarkoviskiaei

Oração Ao Tempo

Caetano Veloso

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Arthur Bispo do Rosário

Mas quem era esse artista? Arthur Bispo do Rosário, um artista atento ao seu mundo, com olhar ao redor e entorno de si, sua obra tornou-se um ícone para a Arte Contemporânea.
“Arthur Bispo do Rosário, negro, sem documentos, presumíveis 27 anos, ganhava um registro no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, na véspera de Natal” (Hidalgo, pag.17) em 1938. Apresentou-se sozinho no manicômio após ter uma visão de anjos que vieram reconhece-lo como representante de Cristo. Após o Natal foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá onde viveu e produziu por quase 50 anos. Naquela época os hospitais psiquiátricos funcionavam como presídio que mantinham os doentes internos em celas com grades sem a menor condição humana de sobrevivência. Bispo havia trabalhado na marinha como sinaleiro e praticou pugilismo na época o que o deu o título de xerife no manicômio pois quando chegavam doentes agressivos, Bispo era chamado pelos enfermeiros ou pela polícia para nocautear o paciente afim de poderem medicá-lo controlando a agressividade do mesmo. Isso trouxe a Bispo um lugar de destaque no hospital.
De meses em meses, pedia ao guarda do Núcleo Ulisses Viana que o prendesse porque ele estava se transformando. O guarda perguntava em que? Ele respondia “em rei. Eu sou o rei dos reis”. Nessas horas exigia ser trancado numa cela onde fazia jejum , assombrado por sua obsessão, um maestro empenhado em dirigir a reconstrução do mundo. Nessa fase de transformação e isolamento que a arte brotava de suas mãos, e sua arte nascia de seus sacrifícios. Na falta de material Bispo desfiava o próprio uniforme azul da Colônia Julianos Moreira para, com os fios, “tecer a teia que abrigaria os lotes do novo mundo. Assim começou a cerzir o Manto da Apresentação, espécie de mortalha sagrada que bordaria durante toda a vida para vestir no dia da apresentação, no Juízo Final, na data da Passagem”. (pag.26). Neste manto haviam vários nomes bordados de pessoas que ele julgava merecedoras de subirem rumo o além.
“Bispo utilizou a mesma técnica de bordados depois chamadas de estandartes: lençóis e cobertores da Colônia bordados à mão com as linhas dos uniformes. Ele bordava nomes de países, funcionários, mulheres eleitas” (pag. 27). Aproveitava também o espaço como desabafo para suas idéias.
Era um dos privilegiados que tinha autorização dos médicos para circular livremente dentro da Colônia por ter boa conduta e “caçava” objetos largados para utilizar em suas obras.
Jacarepaguá deveria sediar o ninho dos excluídos socialmente, aí incluindo homens tomados de estranhos delírios. As pessoas que ali viviam estavam sujeitas a todo tipo de preconceito. A teoria das colônias era o que havia de mais ousado na psiquiatria europeia. Acreditavam que a doença mental era hereditária para segregar e esterilizar os pacientes, especialmente os não brancos, dotados de sabe-se lá que diabólicas tendências psíquicas, supostamente lesivas a uma idealizada raça branca. Nesse período, 1939, a Segunda Guerra Mundial explodia do outro lado do mundo, Hitler filtrava a raça ariana em ritos bárbaros, e Bispo era um sergipano, pobre, negro de ascendência escrava, extraditado para a colônia Juliano Moreira.
Bispo evitava falar sobre seu passado e mesmo os documentos encontrados na marinha e na light tem controvérsias porém o registro de batismo confirma o nascimento em 1909 (batizado em outubro, aos 3 meses de idade). Do pai herdou o sobrenome Bispo e sua mãe tinha o sobrenome Jesus, nome que em seus delírios usava como sendo o próprio Jesus Cristo.
"Filho de Deus, adotado por Virgem Maria e escoltado por seres angelicais, Arthur Bispo do rosário tinha raízes fincada na terra de Japaratuba, no interior de Sergipe, e carregaria a cultura local, incubada, pela estrada de desvios. Os signos desse passado trancado a sete chaves não ficariam de fora na reconstrução do novo mundo”. (pag. 35)
Bispo viveu trancafiado em um quarto-forte transformado em templo e dono de uma verdade mística muito particular, ele faria da vida um retiro, construindo um universo com as próprias mãos que mais tarde ganharia ares de autobiografia. Os delírios diagnosticados pela psiquiatria ao longo do tempo esbarrariam em ícones religiosos.
Sua cidade foi local de conquistas indígenas e pregações missionárias e o nome Japaratuba significa rio de muitas voltas. Os moradores de Japaratuba seguiam rigorosamente as tradições da igreja católica, a tradição cristã era passada de pai para filho. Arthur Bispo do Rosário cresceu assistindo rituais, rosários, mandamentos, pecados, culpas e confessionários. Anos mais tarde, ele se diria filho da Virgem Maria, vivia fazendo jejuns para virar santo, confeccionaria um novo mundo para apresentar ao Todo-Poderoso.
Na quaresma, Japaratuba preparava-se para dias de jejum, comidas, bebidas e danças, era um local que cultuava tradições e alegorias. Bispo criança viveu tempos de procissões, quadrilhas e desfiles e as festas eram precedidas de semanas de preparativos onde bordadeiras e costureiras preparavam as roupas para os folguedos. Os bordados eram perfeitas traduções da cultura de Japaratuba.
Em sua memória parece que Bispo carregou dessa vila onde nasceu a diversidade de bordados, fardões e tecidos das datas festivas. Um dia, designado “rei dos reis” por seres luminosos, ele teceu o próprio Manto da Apresentação, vermelho cheio de bordados, que o levaria ao dia do Juízo Final

PAUL KLEE- Silêncio do Anjo

Para os admiradores desse artista, o documentário sobre Paul Klee, fala de sua vida, sua obra e carreira, exibido pela TV Cultura passa as seguintes informações:

Paul Klee- silêncio do anjo

.A arte não reproduz o visível, ela torna visível
.1900 a Alemanha está em seu apogeu cultural
.Profissão ideal a arte, a filosofia e a política. Profissão real, artista plástico
.Em Munique Klee se relaciona com o grupo “Cavalheiro Azul”
.Escreve um diário sobre música, pintura, reflexões (Diários, Paul Klee- esgotado mas pode-se encontrar em sebos)
.Cria um teatro de marionetes para entreter Felix, seu filho, com mais de 50 personagens- um deles é o pp Klee
.A pintura é questão de sobreposição, ritmo e harmonia
.A contemplação é uma revelação
.Ele observa a natureza não para reproduzi-la, mas para captar a sua essência
.Para ele uma obra pode nascer, crescer e se organizar como uma planta
.“É num ponto muito importante, na origem das coisas que eu me situo”
.A partir das aquarelas tunisianas Klee utilizou as aquarelas quadriculadas,
.Influenciado por Delaunay que se afastou do cubismo para explorar as cores puras cores
.Fundo preto: para ele não há estrutura, nada além da cor
.Como equilibrar duas cores em oposição?
.“Eu gostaria de organizar o movimento”
.1902 viagem a Italia, ficou impressionado com os mosaicos
.1932 está no auge da busca luz e harmonia
.1933- 245 desenhos neste ano, rabiscos do homem sofrido se expressando em silencio
.17 março 1933 seu ateliê é invadido pelos nazistas
.Morre em junho de 1940 deixando mais de 9000 obras as últimas inacabadas.