sexta-feira, 27 de abril de 2012

ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO



Entre o Mar, o Céu e a Terra, reflexões sobre os signos na obra de Arthur Bispo do Rosário, leva esse nome porque na maioria de suas obras ele trás símbolos de suas memórias, suas histórias e seu passado. Da vida na marinha(mar) trás os barcos, navios, nomes de colegas bordados; do céu ele trás referências de Nossa Senhora, Jesus e o manto que utilizará no dia do julgamento; da terra ele utiliza todos os materiais que se lhe apresentam na frente transformando-os em instalações e antecipando-se na utilização das sucatas tão utilizadas na atualidade.
As duas obras escolhidas para que a pesquisa se desenvolva em termos reflexivos , além do Manto da Apresentação, mostram a essência de sua produção: o bordado e a caixa de memórias. A respeito do Manto da Apresentação já há algumas pesquisas feitas e por isso iremos nos focar na “Caixa dos Escolhidos” e na obra “Estandartes”.
Mas quem era esse artista? Arthur Bispo do Rosário, um artista atento ao seu mundo, com olhar ao redor e entorno de si, sua obra tornou-se um ícone para a Arte Contemporânea.
“Arthur Bispo do Rosário, negro, sem documentos, presumíveis 27 anos, ganhava um registro no Hospital Nacional dos Alienados, na Praia Vermelha, Rio de Janeiro, na véspera de Natal”[1]*  em 1938. Apresentou-se sozinho no manicômio após ter uma visão de anjos que vieram reconhece-lo como representante de Cristo. Após o Natal foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá onde viveu e produziu por quase 50 anos.  Naquela época os hospitais psiquiátricos funcionavam como presídio que mantinham os doentes internos em celas com grades sem a menor condição humana de sobrevivência. Bispo havia trabalhado na marinha como sinaleiro e praticou pugilismo na época o que o deu o título de xerife no manicômio pois quando chegavam doentes agressivos, Bispo era chamado pelos enfermeiros ou pela polícia para nocautear o paciente afim de poderem medicá-lo controlando a agressividade do mesmo. Isso  trouxe a Bispo um lugar de destaque no hospital.
De meses em meses, pedia ao guarda do Núcleo Ulisses Viana que o prendesse porque ele estava se transformando. O guarda perguntava em que? Ele respondia “em rei. Eu sou o rei dos reis”. Nessas horas exigia ser trancado numa cela onde fazia jejum , assombrado por sua obsessão, um maestro empenhado em dirigir a reconstrução do mundo. Nessa  fase de transformação e isolamento que a arte brotava de suas mãos, e sua arte nascia de seus sacrifícios. Na falta de material Bispo desfiava o próprio uniforme azul da Colônia Julianos Moreira para, com os fios, “tecer a teia que abrigaria os lotes do novo mundo. Assim começou a cerzir o Manto da Apresentação, espécie de mortalha sagrada que bordaria durante toda a vida para vestir no dia da apresentação, no Juízo Final, na data da Passagem”. (pag.26). Neste manto haviam vários nomes bordados de pessoas que ele julgava merecedoras de subirem rumo o além.
“Bispo utilizou a mesma técnica de bordados depois chamadas de estandartes: lençóis e cobertores da Colônia bordados à mão com as linhas dos uniformes. Ele bordava nomes de países, funcionários, mulheres eleitas”[2] . Aproveitava também o espaço como desabafo para suas idéias.
Era um dos privilegiados que tinha autorização dos médicos para circular livremente dentro da Colônia por ter boa conduta e “caçava” objetos largados para utilizar em suas obras.
Jacarepaguá deveria sediar o ninho dos excluídos socialmente, aí incluindo homens tomados de estranhos delírios. As pessoas que ali viviam estavam sujeitas a todo tipo de preconceito. A teoria das colônias era o que havia de mais ousado na psiquiatria europeia. Acreditavam que  a doença mental era hereditária para segregar e esterilizar os pacientes, especialmente os não brancos, dotados de sabe-se lá que diabólicas tendências psíquicas, supostamente lesivas a uma idealizada raça branca. Nesse período, 1939, a Segunda Guerra Mundial explodia do outro lado do mundo, Hitler filtrava a raça ariana em ritos bárbaros, e Bispo era um sergipano, pobre, negro de ascendência escrava, extraditado para a colônia Juliano Moreira.
Bispo evitava falar sobre seu passado e mesmo os documentos encontrados na marinha e na light tem controvérsias porém o registro de batismo confirma o nascimento em 1909 (batizado em outubro, aos 3 meses de idade). Do pai herdou o sobrenome Bispo e sua mãe tinha o sobrenome Jesus, nome que em seus delírios usava como sendo o próprio Jesus Cristo.
Filho de Deus, adotado por Virgem Maria e escoltado por seres angelicais, Arthur Bispo do rosário tinha raízes fincada na terra de Japaratuba, no interior de Sergipe, e carregaria a cultura local, incubada, pela estrada de desvios. Os signos desse passado trancado a sete chaves não ficariam de fora na reconstrução do novo mundo. (p. 35)
Bispo viveu trancafiado em um quarto-forte transformado em templo e dono de uma verdade mística muito particular, ele faria da vida um retiro, construindo um universo com as próprias mãos que mais tarde ganharia ares de autobiografia. Os delírios diagnosticados pela psiquiatria ao longo do tempo esbarrariam em ícones religiosos.
Sua cidade foi local de conquistas indígenas e pregações missionárias e o nome Japaratuba significa rio de muitas voltas. Os moradores de Japaratuba seguiam rigorosamente as tradições da igreja católica, a tradição cristã era passada de pai para filho. Arthur Bispo do Rosário cresceu assistindo rituais, rosários, mandamentos, pecados, culpas e confessionários. Anos mais tarde, ele se diria filho da Virgem Maria, vivia fazendo jejuns para virar santo, confeccionaria um novo mundo para apresentar ao Todo-Poderoso.
Na quaresma, Japaratuba preparava-se para dias de jejum, comidas, bebidas e danças, era um local que cultuava tradições e alegorias. Bispo criança viveu tempos de procissões, quadrilhas e desfiles e as festas eram precedidas de semanas de preparativos onde bordadeiras e costureiras preparavam as roupas para os folguedos. Os bordados eram perfeitas traduções da cultura de Japaratuba.
Em sua memória parece que Bispo carregou dessa vila onde nasceu a diversidade de bordados, fardões e tecidos das datas festivas. Um dia, designado “rei dos reis” por seres luminosos, ele teceu o próprio Manto da Apresentação, vermelho cheio de bordados, que o levaria ao dia do Juízo Final .


[1] Luciana  HIDALGO, Arthur Bispo do Rosário,  o Senhor do Labirinto, p. 17.
[2] Ibid., p. 27.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

AQUARELA

Em 1987 fui fazer um curso no MAC Ibirapuera que tinha o título "O Fazer Artístico". O curso foi ministrado por John Swift, diretor da Universidade de Cambridge e a técnica utilizada foi a aquarela. O curso durou 5 dias e a cada dia era trabalhado um tema a respeito do Valor da Imitação. Tudo foi inovador. A minha geração passou por uma mudança brusca onde as aulas de arte deixaram de valorizar a cópia, os desenhos "mimeografados" e passarm a ser aulas livres.
Toda mudança radical necessita de um tempo para ser assimilada e encontrar um equilíbrio. Como podemos ser livres para criar sem noção do que e de como fazer? Não podíamos usar borracha mas também não sabíamos olhar... a base do desenho é a investigação sensorial, visual, tátil. Para algumas pessoas é angustiante demais o fato de ouvir ao comando "faça um trabalho livre". Não há nada mais intimidador, paralizador do que isso. Bem, o fato é que John Swift ao falar a respeito do valor da imitação abriu um portal enorme de possibilidades e valoriação para a criatividade.
Hoje falar a respeito de citação, referência a um artista, releitura é comum; mas não ´década de 70, 80 isso não era possível. Em 1987 eu já estava formada em artes plásticas e fazia pós graduação em História da Arte, no mesmo ano fiz curso com Nuno Ramos e Paulo Monteiro também no MAC. Eu adorava experimentar materiais, criar, não me prendia a conceitos externos quando produzia um trabalho expressivo; eu gostava mesmo era da liberdade de me expressar de acordo com a minha necessidade interior (e ainda gosto).
Por isso, ao ouvir falar sobre imitação consciente e inconsciente, sobre memórias inconscientes que se revelavam em uma pintura fiquei encantada.
Uma das atividades foi buscar na memória a nossa própria imagem e registrá-la em aquarela. O resultado foi esse abaixo:

Para minha surpresa o professor perguntou-me se eu era aquarelista! Não, eu nunca havia pintado uma aquarela até aquele dia porém, aquele comentário me insentivou a ponto de me fazer nunca mais parar de aquarelar qualquer pedacinho de papel que encontro. Obrigada John Swift.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ENSAIO SOBRE SAPATO

Gosto de andar pelas ruas e fotografar ou pegar sapatos encontrados; geralmente um pé só, sem dono, sem o pe´. Por onde anda o pé deste sapato? Há 10 anos me ocupo disso...
Tudo começou numa madrugada no Bexiga, madrugada paulistana, garoa e alguns amigos já meio embreagados, a risada rolava solta. Como eu não bebo me divirto com as histórias. Então a essa altura, umas 2h da madrugada, olhei para o chão e havia uma cena mágica: um sapato abandonado com a sola aberta, a garoa caindo e a luz do poste refletindo sobre ele. Olhei aquela imagem e disse "olha que maravilha! Que poético!". Sem hesitar peguei aquele sapato abandonado pensando em fazer uma instalação com ele. Todos pararam, começaram a rir e comentar "ainda bem que ela não bebe, rsssss". Tudo bem, eu continuo até hoje encantada com cada sapato que encontro abandonado na rua- e são vários...
Essa foto é uma experiência desta pesquisa e, por coincidência, também encontrado numa madrugada no Bexiga agora recentemente.




 ...

Olha o sapato no chão
onde andará esse pé...
no céu o brilho da noite
a rua cheia de bar
o pé, o chão.
o sapato na rua,
o olho na lua.
                              Claudia Colagrande

domingo, 1 de abril de 2012

DESDOENDO

Uma amiga do FB publicou uma palavra muito interessante "desdoendo"! Ana Cristina Martins me inspirou tanto com esta palavra que há 3 dias me pus a pensar nos "des" da vida; e são muitos, e tantos como : descolagem, despertar, despontar, despejar, desapego, deslocado, desencorajar, destoar, desbotar, desavesso, enfim poderia passar horas aqui buscando palavras desafiando o desejo de encontra-las. Mas desdoendo... essa eu nunca havia ouvido, lido nem pensado. E foi por isso que fiquei instigada a escrever algo que desconstruisse o pensamento mecânico de repetir palavras já prontas, tentando brincar com as palavras usando-as de forma criativa. O que surgiu deste ensaio reflexivo foi o seguinte:   

Procuro desfalar e desver
Despercorrendo o descaminho
Iniciando o despercurso
Lentamente desdoendo...
Claudia Colagrande, outono 2012

O que foi arrebatador foi a motivação que me levou a encontrar palavras que pudessem fazer sentido onde não há. Como o caminho que nunca foi percorrido, o sonho que nunca foi sonhado, a emoção que ainda não foi descoberta. Assim vou tecendo a vida buscando dar um dessentido a ela já que muitas vezes parece não haver nenhum. Desdoendo é muito bom! Ainda não é sem dor mas o desejo do por vir.
E vou desdomingando com a foto da Nina que clicou a pomba desvoando, boa noite!