domingo, 6 de janeiro de 2013

IMAGENS DO INSTANTE


IMAGENS DO INSTANTE
“Nada é permanente, salvo a mudança”
Heráclito
Este projeto  em Poéticas Visuais pretende operar uma reflexão da minha produção artística pautada na observação da impermanência e transitoriedade da vida, utilizando textos e sugestões de filósofos como Gaston Bachelard (A Intuição do Instante, 1931, 1992, 1993) e Vilém Flusser (Filosofia da Caixa Preta, 1985), entre outros.
Imagens do Instante propõe, enquanto imagens, elementos sobrepostos, imagens sobre vida e morte que se confluem de maneira difusa, sugerindo os vários instantes que permeiam “o instante”. Faz parte desta pesquisa a utilização de outras linguagens expressivas, partindo da imagem fotográfica, como livros de artista, gravuras e pinturas.
Bachelard (pág. 15), citando Roupnel diz: “o tempo só tem uma realidade, a do instante”; desta sugestão surge a inspiração que pontua minha produção artística atual, representando, respectivamente, a vida e a morte em poética visual, baseada nos vários instantes contidos em um único instante, assim como o momento da criação e a análise dos resultados dessa produção artística, misturando-se às palavras entoadas, parafraseando Manoel de Barros (Menino do Mato, pág.41) “Pra meu gosto a palavra não precisa significar – é só entoar”.
Palavras-chave: instante; sobreposição de imagens; livro de artista; poética visual.

Motivo ( Cecilia Meireles)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
O tema Imagens do Instante surgiu da leitura de Bachelard (1931), A Intuição do Instante. O instante que eu vivencio se dá simultaneamente com outros instantes que não vejo e não vivencio, embora, mesmo assim, possa capturá-los, em outro instante, por imagens que os registraram. O instante da criação de uma obra de arte é único, porém permanece o produto, não o instante. É um paradoxo. Imagens do Instante enquanto palavra, pois cada instante nasce e morre em si mesmo e é nesse pensamento que “permaneço e me desfaço”, escrevendo e produzindo imagens que tratam da vida e da morte simultaneamente.
Em minha experiência como artista plástica, iniciei com pinturas e colagens, desconstruindo imagens ou as negando. Aos 15 anos, li pela primeira vez a Alegoria da Caverna, de Platão, onde ele trata do mundo das aparências relacionando-o com o mundo das Idéias; o homem comum, para Platão, vive dentro de uma caverna de costas para a entrada, vendo apenas a sombra de tudo o que se passa fora dela, acreditando que isso é a única realidade existente. Para Platão, apenas os filósofos e os artistas poderiam perceber que podiam, ao virar-se, encontrar a saída e ver a verdadeira realidade, a essência das coisas. Esse mito me tocou e me direcionou, sempre.
Como artista abstrata, durante 26 anos poucos trabalhos produzi usando figuras de objetos, pessoas ou natureza, tendo talvez ainda Platão como referência. Para ele, os artistas deveriam criar, produzir imagens incorpóreas e não tentar imitar a aparência das coisas. Alguns anos mais tarde, li Schiller (1995), A Educação Estética do Homem, que diz (pág. 13): “A realidade das coisas é obra das coisas; a aparência das coisas é obra do homem...” e assim meu repertório foi se formando, tendo como referência esses pensadores.
Em 1987, fiz um action painting, curso de arte contemporânea com Nuno Ramos e Paulo Monteiro. O trabalho era desenvolvido a partir de discussões a respeito do Expressionismo abstrato, e outras escolas de Nova York que me influenciaram sensivelmente. Antes dessa experiência, os artistas que me interessavam eram Paul Klee, Matisse, Kandinsky, Miró, Klint. Depois me encantei com obras de Willem de Kooning, Mark Tobey, Pollock, Pierre Alechinsky, Karel Appel, Yves Klein, Arshile Gorky e outros em linguagens predominantemente ligadas ao abstracionismo informal. Também estudei os brasileiros Hélio Oiticica, Lygia Clark, Gonçalo Ivo, Tomie Ohtake, Nuno Ramos, Arcangelo Ianelli , Erdith Derdyck, Leonilson, Bispo do Rosário, Iberê Camargo, Alex Vallauri, entre outros. Todos esses artistas me mostram como resolveram a sua questão com a imagem. A minha busca é definir ou reconhecer como eu tenho resolvido as minhas questões existenciais através da arte.
Os materiais, as texturas produzidas com colagens, monotipias ou pintura me interessavam muito mais do que os resultados de minhas obras. O processo em si, o instante da criação sempre foi para mim algo impactante. Depois de feita, a obra acaba? Assim, segui usando a principio apenas papel de todas as texturas, tamanhos, com materiais diversos - de pastel seco a oleoso, aquarela, gravura em metal, colagens, também com papéis. A aquarela ganhou a minha preferência por sua fluidez e permissão generosa de usar duas ou mais cores, num mesmo espaço, sem que uma anulasse a outra. O interesse pela sobreposição já se anunciava nesse período. 
Trabalhei com uma artista italiana- Orietta del Sole- por um ano e sua produção era absolutamente tomada por tecidos antigos, feltros, bordados, laminados e tudo mais que lhe chegasse às mãos. Orietta Del Sole era barroca, enquanto eu delicadamente pintava as minhas aquarelas zen. Sua influência em meus trabalhos foi, apesar das diferenças, arrebatadora. O feltro foi entrando em minha obra, transformando-se em painéis, quimonos, símbolos que se transformavam em imagens nos panos coloridos, recortados e colados ou costurados. Colagens e sobreposições, sempre. Nesse período, o abstrato cedeu espaço em alguns trabalhos, para formas menos abstratas. Durou pouco. Meu interesse pelas cores ou não cores, texturas e ocupação do espaço, e o vazio, me faziam mais uma investigadora do processo criativo do que uma artista.
Em 2011, busquei, através da retomada dos estudos, um novo caminho, e a leitura de Walter Benjamin (A Tarefa do tradutor) me fez pensar sobre o papel do artista plástico como um “tradutor” das questões da vida através da imagem. No momento de todas essas reflexões, mortes de alguns conceitos, nascimento de outros, ouvi falar de um perito fotográfico. Chamou-me a atenção como seria o dia a dia de uma pessoa fotografando pessoas mortas. Em cada instante, quantos instantes cabem? A Intuição do Instante, de Bachelard (1931, 1992, 1993) chegou nesse momento, o mesmo em que procurei esse fotógrafo e lhe perguntei se poderia me ceder algumas imagens para o desenvolvimento de um projeto em artes visuais. 

Acompanhando Oswald de Andrade "Poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi", penso que o meu processo criativo é a representação das coisas que eu nunca vi. Novamente Nietzsche "o que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte" direcionava meu percurso criativo. A alusão à morte em minha arte, junto à vida vem abrindo um novo caminho de expressão e especulação com materiais e técnicas que me preenchem e me esvaziam.

 Objetivos
Tudo que se passa no onde vivemos é que em nós se passa.
Tudo que cessa no que vivemos é em nós que cessa
F. Pessoa

Em meu trabalho atual a sobreposição das imagens ocorre primeiramente através da escolha de fotografias; a imagem do fundo é sempre de uma pessoa morta, enquanto a imagem do primeiro plano é de natureza, flor, algo que alude à vida. A imagem do fundo sofre alterações de cor e textura, tornando-se difusa; a intenção não é “chocar” ou agredir o observador, mas sim lembrá-lo de que a vida é um instante e que, em outro instante não estaremos mais aqui. A imagem do primeiro plano sobrepõe a primeira, nos lembra a poesia do olhar, o poder contemplar o belo aqui-agora (hic et nunc), possui um tratamento de transparência, como o efeito veladura da aquarela para que sejam vistas as duas imagens sobrepostas. É nesse paradoxo que se encontra o objetivo específico deste projeto. É a ideia de descontinuidade, citando Bachelard (2001) e do conceito “sfumato” ( Leonardo da Vinci) por Gelb (2000). Leonardo criou sete princípios dos quais se valia durante o seu processo criativo, transportados para o Centro Educacional Leonardo da Vinci, a saber: I. Curiosità; II. Dimostrazione; III. Sensazione; IV. Sfumato; V. Arte/Scienza; VI. Corporalità; VII. Connessione.
O conceito de sfumato, em português, aproxima-se de esfumaçado, alude à idéia de uma visão difusa; seria a disposição para aceitar a ambiguidade, o paradoxo e a incerteza, mantendo a mente aberta diante do incerto; seria o segredo da libertação do processo criativo. No caso desta pesquisa, além da aceitação da ambiguidade, o sfumato se dá também no resultado das imagens sobrepostas, dois instantes distintos ocupando o mesmo espaço de maneira difusa. Nas etapas seguintes às primeiras imagens seguem-se a fotogravura com a mesma proposta sfumato mas também o uso de outros recursos de reprodução das imagens transitando possibilidades expressivas. E assim o livro de artista é a obra de registros desse processo em outra linguagem no âmbito da poética visual.
A escolha do filosofo francês Gaston Bachelard deve-se à sua operação que une a epistemologia, considerada o aspecto diurno de sua obra, com a poética, a imaginação, o tempo, a alquimia, considerados como o aspecto noturno, complementando e fundamentando sua produção intelectual na qual busco referências para fundamentar e analisar minha produção artística em poética visual. Meu objetivo é também tornar visíveis, ainda que de maneira difusa, utilizando sfumato, reflexões sobre o aspecto diurno da existência, alusão à vida, natureza assim como sobre o aspecto noturno, o fim, a morte.
Pretendo criar o paralelo entre o sfumato e os instantes que se sobrepõem onde cada um vê apenas uma mínima parte, a qual é chamada de realidade. Essa realidade, capturada por um fotógrafo, que usa um equipamento técnico para fotografar, alinha o olhar para capturar a imagem do instante. Essas fotos, antes de serem reveladas, passam pelo computador, outro equipamento que captura a imagem, traduzindo o gesto do fotógrafo e ao chegarem a mim já fizeram seu percurso antes de serem transformadas em outra imagem. São dois os fotógrafos que fazem esse trabalho para mim, que capturam imagens pensando em como poderei utilizá-las no processo de transformação. Um captura a morte; o outro, a vida da natureza (que também é transitória).
Em seu trabalho “A Filosofia da Caixa Preta” (1983), Flusser formula filosoficamente os atos e processos da fotografia. A obra é dividida em nove capítulos intitulados “A Imagem”, “A imagem técnica”, “O aparelho”, “O gesto de fotografar”, “A fotografia”, “A distribuição da fotografia”, “A recepção da fotografia”, “O universo fotográfico” e “A necessidade de uma filosofia da fotografia”.
No caso do objetivo de minha pesquisa, utilizo a técnica do fotógrafo e seu gesto fotográfico para criar novas imagens e reflexões referentes ao instante e à transitoriedade das coisas, criando objetos culturais, segundo Flusser (1985), objetos portadores de informação impressa pelo homem. Para o autor, imagens são mediações entre o homem e o mundo.
Yves Klein (Escritos de artistas, pág.64), diz que “a imaginação é o veículo da sensibilidade”. Através da imaginação me proponho nesta fase de minha produção a explorar recursos de reprodutibilidade técnica que sempre me recusei a usar. Faço parte de uma geração anterior ao computador e a minha resistência a essa ferramenta contemporânea foi muito grande, porém inevitável. Citando também Joseph Kosuth(Escritos de artistas, pag.217) .” toda arte (depois de Duchamp) é conceitual (por natureza), porque a arte só existe conceitualmente”. Meu objetivo é utilizar os recursos gráficos de um equipamento técnico com poesia e imaginação, sem perder a sensibilidade. Ubirajara Ribeiro, aquarelista que me influenciou muito em minhas aquarelas, dizia que pintar, compor, é um conjunto de afetações. Os afetos são ferramentas tão importantes para minha criação artística quanto as ferramentas e os materiais que utilizo para criá-los.


Claudia Colagrande, 
primavera 2012

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